Ter, 03/02/2026 - 16:50
Na Unidade Local de Saúde do Nordeste, o Serviço Nacional de Saúde mantém-se de pé não por virtude da política seguida, mas apesar dela. A falta de médicos, a ausência sistemática de avaliações e o bloqueio à progressão nas carreiras estão a fragilizar serviços hospitalares essenciais e a empurrar a instituição para uma dependência crescente de prestadores de serviço, solução cara, instável e estruturalmente perversa. O alerta, deixado pelo Sindicato dos Médicos do Norte, não é corporativo nem conjuntural, é um diagnóstico sério sobre um sistema que insiste em sobreviver à custa do esforço individual, em vez de se fortalecer com planeamento, justiça e visão estratégica.
As palavras de Joana Bordalo e Sá são particularmente elucidativas. Um corpo clínico que não é avaliado, que não progride vertical nem horizontalmente, que vê sucessivamente adiadas as aberturas de vagas para categorias superiores, é um corpo clínico condenado à desmotivação. Num SNS que se quer moderno e exigente, a avaliação não é um capricho burocrático, mas um instrumento de reconhecimento, diferenciação e estímulo. Quando ela desaparece, instala-se a estagnação. E, com ela, o risco de abandono.
A situação é tanto mais grave quanto mais carentes são as especialidades. Ginecologia e obstetrícia, ortopedia e outras áreas críticas acumulam “dezenas” de vagas por preencher, segundo a delegada sindical Elisabete Pinelo. O recurso a médicos em prestação de serviços, muitas vezes a trabalhar lado a lado com equipas exaustas e subdimensionadas, tornou-se regra. Não é um modelo sustentável, nem garante continuidade assistencial, nem cria laços com o território.
A este quadro soma-se outro erro estratégico, a redução persistente de vagas para médicos internos. Limitar a formação é comprometer o futuro. Sem internos, não há renovação, sem renovação, não há fixação, sem fixação o Interior perde. A desigualdade entre litoral e interior, neste domínio, não é apenas injusta, é politicamente irresponsável.
Apesar de tudo, a Unidade Local de Saúde do Nordeste continua a funcionar. Funciona porque os médicos “vestem a camisola”, porque resistem onde outros desistiriam. Mas nenhum serviço público pode assentar indefinidamente no sacrifício dos seus profissionais. A resiliência não substitui políticas públicas, a dedicação não compensa a falta de investimento.
O que está em causa não é apenas a carreira médica, mas o próprio direito à saúde no interior. Sem médicos do quadro, avaliados, valorizados e com perspetivas de progressão, não haverá SNS de proximidade digno desse nome. Persistir neste caminho é aceitar que o interior fique para trás. E isso, num país que se quer coeso, não é uma fatalidade, é uma escolha.
Carina Alves, Diretora de Informação.



